quarta-feira, 7 de março de 2007

Anish Kapoor 1


(para mim ele ainda é um buraco negro)


A-Na segunda-feira pela manhã, o Centro Cultural Banco do Brasil estava fechado para o público. Centro de São Paulo ensolarado - e sempre há nos dias alguém na minha frente com deformações nas pernas, que caminha com dificuldade por causa de problemas nos ossos, pelo uso de próteses, muletas, etc...- chego ao prédio que para mim tem sim a entrada livre, meus ossos do ofício.
Enfim, depois do que tinha de fazer, e antes do que tinha de fazer, pensei comigo que as salas da mostra de Anish Kapoor estariam fechadas e sem luz. Sendo assim, não teria como vê-las.

B-Para mim ele seria um mistério.
Para mim sua obra poderia ser uma revelação, algo epifânico.
Por isso, até hoje, não estive realmente à frente de suas criações - talvez medo inconsciente
de acontecer aquela insistente desmistificação de tudo, pouco a pouco.

C- Enfim, depois do que tinha de fazer, uma das obras de Kapoor estava à minha disposição sim - uma não, duas, mas sobre essa última eu nem quero falar.
No vão central do Centro Cultural Banco do Brasil, no foyer iluminado por luz natural da clarabóia, está a grande escultura de bronze de Kapoor (de 1999). Estou à sua frente.

D- Nada acontece. Ela é polida, muito bem acabada, dourada, muito maior do que eu, recostada numa das paredes do vão central do prédio. Já me disseram se tratar de um barco, de um grande olho, de uma vagina porque ela é grande, comprida, com uma abertura em forma de concavidade. Mas, para mim, ela não era nada, apenas uma escultura polida. Pensei se aquela imensa proporção poderia me oferecer algum tipo de sensação - ou ilusão, isso que é tão caro a Kapoor. Mas, para mim, ela simplesmente não era nada.
Talvez fosse sua colocação errada naquele espaço errado.
Talvez fosse minha colocação errada à sua frente.
Talvez não fosse nada mesmo, mas a insistente e iminente desmistificação.

E- Há quem queira saber o que não é para saber literalmente.
Inclusive eu.

F- A escultura de bronze eu não posso explicar. Pelo menos até agora.
A escultura de fumaça, Ascension, essa outra de Kapoor que ainda nem vi, eu não posso explicar.
Quem não sente, não sente o mistério visível (a mesma expressão de outra vez).

Kapoor ainda renderá desdobramentos porque sei que SIM, sua obra vai me arrebatar em algum momento inesperado, à frente de sua monumentalidade feita de poucos recursos.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Julião Sarmento




1. Artista português, alto, nascido em 1948, Sarmento fala com segurança sobre sua obra. "Cores eu não preciso, mas não tenho nenhum preconceito contra elas." Ora, pois, então: preto-e-branco, o essencial.
Na 25.ª Bienal de São Paulo, primeira oportunidade que tive de ver sua obra, estavam quadros de cenas pornográficas representadas em preto-e-branco com apenas as silhuetas dos personagens. Masculinos, femininos, por vezes, abstratos como manchas lisas, negras, precisas sobre o fundo branco. Nada daquilo era uma pintura gestual, mas uma composição de sombras ou fantasmas desempenhando um papel, no caso, um papel sexual.
Mas sempre são as mulheres que predominam (e ela nem tem idéia da liberdade que fora, cabe esse meu comentário ensimesmado agora).
A primeira tela se chama Our Most Cherished Narratives (e ela nem tem idéia da liberdade que fora, cabe mais uma vez esse meu comentário).
A série se chama Silhuetas Negras - Pornstar.
2. Agora, em Pictures Show, exposição que acabo de ver com o próprio Sarmento na Galeria Fortes Vilaça, ele exibe uma outra série: são pinturas, desenhos e uma escultura baseados no cinema (filmes de Hollywood das décadas de 1940 e 1950).
A figura da mulher está mais uma vez (sempre) presente. Primeiro, nas pinturas, anônimas ao serem representadas a grafite apenas usando um vestido preto e tendo suas cabeças cortadas na altura do queixo. Feitas por traços simples, até mesmo frios, elas fazem poses despretensiosas. Estão acompanhadas na tela pela inscrição do nome de suas personagens nos filmes (Margot, Constance, Nina, Gaby...), de uma frase (sua primeira fala, respectivamente, em cada filme) e de um símbolo referente à narrativa (um copo, uma janela, uma cruz).
Depois, nos desenhos, elas são as divas do cinema, agora sim ganham rostos nas fotos coladas (Elizabeth Taylor, Grace Kelly, Ingrid Bergman, Greta Garbo, as que me lembro). Estão acompanhadas de enigmas: de uma frase (sua última fala, respectivamente, em cada filme) e de desenhos de mãos femininas que fazem gestos indecifráveis, inventados.
Quem são todas essas mulheres?
3.No catálogo que recebi sobre a série Silhuetas Negras, além das imagens da série Pornstar há as de outro conjunto que particularmente me interessou: Domestic Isolation 1 e 2: toda de mulheres. Na obra The Bodily Experience of Space a experiência de espaço, como diz o título, é a distância entre duas figuras femininas que se entreolham e seguram o mesmo colar. Depois, eu poderia dizer que em outra obra elas se estrangulam - Women's Physical Contact - mas prefiro o colar, o vestido, cherished narratives.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Danaíde


"Quem volta às origens não se degenera" (mais uma verdade)


outra:

"Foi talvez nesta época que nasceu a Danaíde que, agachada sobre os joelhos, mergulha a cabeça nos seus cabelos soltos e ondulados. É maravilhoso andar lentamente ao redor deste mármore: o longo, longo caminho ao redor da curvatura ricamente trabalhada destas costas, até o rosto que parece perder-se na pedra em um profundo choro, até a mão que, como uma derradeira flor, fala mais uma vez da vida, em voz mansa, profundamente incrustada no gelo eterno do bloco pétreo." Rainer Maria Rilke, precisamente, sobre a escultura Danaíde, de Auguste Rodin.


Danaíde a vi na capa de um livro, depois nessas palavras.


Adiante: Quem chega às origens não se degenera.

Soube noutra noite que Camille Claudel se agachou, tirou um pouco o seu vestido negro para suas costas inspirarem esse mistério visível de mármore. Era um filme.

Pouco tempo depois, em Buenos Aires, Danaíde era uma réplica original diminuta no Museo de Bellas Artes (a vi na mesma primeira vez que estive à frente de um Rembrandt). Quase à mão, lentamente ao seu redor, suas costas guardadas por uma pequena redoma de vidro.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

[Um começo rápido com Duchamp]


A noiva despida por seus celibatários, mesmo (O Grande Vidro)

Até hoje não vi na minha frente esta obra de Duchamp, atualmente no Museu de Arte da Filadélfia. A partir de descrições, a partir de imagens, penso que se trata de um grande vidro, de mais de 2 metros de altura, dependurado, que traz pintadas sobre si duas situações: a primeira, acima, uma espécie de motor (noiva mecânica) e uma fumaça; a segunda, abaixo, a figura de um moedor de chocolate antigo, mais uma vez uma noiva mecânica, cujas hastes se preparam para que ela aglutine em si um conjunto de nove peças indefinidas, mas masculinas (como peças de xadrez). O Grande Vidro (representado acima por imagens toscas) é uma das mais famosas charadas de Duchamp, artista abre-alas da arte conceitual.


Essa é uma rápida apresentação da inspiração para o título desse blog, espaço que será livre, anônimo, virtual, mas "um mergulho nas artes plásticas", como sempre me diz uma amiga. A cada dia evocarei uma obra - de qualquer período, país, artista, corrente, movimento, gênero - para fazer um pequeno exercício despretensioso - e para dizer a verdade, pouco importa que seja um exercício ensimesmado e inútil.